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má mãe

A arte contemporânea tem um interessante sujeito de discussão: a arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Sugiro que se troque arte por ficção. A ficção imita a vida ou é o contrário?

Aqui entre nós diria que é mais o contrário.

Na revista Máxima do mês de Abril, páginas 160 e 162, há uma entrevista a Elisabeth Badinter, que acabou de lançar um livro intitulado O Conflito – a mulher e a mãe. Diz ela que se tem de deixar de pensar que as mulheres se transformam automaticamente em Mozarts da maternidade no momento do parto, que esta é uma utopia nociva. Que a idealização das mães nos leva de volta a uma sociedade tradicionalista, mulher em casa a tomar conta da criançada e o pater familias a alimentar as bocas todas. E que isto, nos tempos que correm e na nossa sociedade, não é lá grande coisa. Afirma que as jovens mulheres são expostas a um discurso “ecomoralizador” sobre os benefícios das práticas naturais e que se não se der a mama é porque se é má mãe e egoísta e se entra num belo dum processo de culpabilização.

Aponta o dedo à La Leche League e diz que o discurso deste grupo de apoio (e incentivo) à amamentação, par a par com a (nova?) tendência de cosleeping, levam ao desaparecimento da mulher como tal. Para ajudar à festa acrescenta ainda que não são as mulheres que se questionam de mais, mas sim os profissionais ligados à infância e à maternidade que, certos da sua autoridade nos impõem, à medida que os anos vão passando, cada vez mais obrigações. Toma.

Que as mulheres estão sujeitas a inúmeras pressões sociais não é novidade nenhuma. Agora quem aponta o dedo sou eu e diga-se de passagem que a dita imprensa feminina tem uma boa parte de responsabilidade… A nossa realidade deve ser lisa, imaculada e polida, em todos os seus aspectos:

  • temos de estar lindas e frescas, sem olheiras nem rugas
  • devemos ter bons pensamentos e não nos poluirmos por dentro nem por fora (e pensar positivo para atrair o que o Universo nos reserva)
  • as mulheres querem-se elegantes, sofisticadas e bem vestidas, já agora com acessórios que custam 4 algarismos
  • ter sempre a depilação impecável e a manicure de fazer sonhar um tipo com uma bela arranhadela nas nádegas
  • receber bem e cozinhar ainda melhor
  • conhecer os bons vinhos e os bons restaurantes
  • devemos estar numa boa posição relativamente aos x livros ou aos y lugares que devemos ler ou visitar antes de ir desta para melhor
  • ser alegres e bem-dispostas e leves (o contrário de pesadas, no sentido literal e metafórico)
  • fabulosas na cama, cheias de gadgets e aparelhos e posições e lingeries testadas e aprovadas e recomendadas pela revista Happy
  • devemos saber envelhecer porque a verdadeira beleza é interior e isso reflecte-se na cara
  • (se não se reflectir há sempre umas ajudinhas como as do cartãozinho desconto no final da revista)
  • proactivas e dinâmicas no emprego
  • idealmente magras mas, acima de tudo, saudáveis

Isto tudo está muito bem. A malta já está habituada. Aliás, aposto que boa parte destes itens são criados por mulheres e os homens dispensam muitos deles.
Agora o ultimate tabu, o de ser má mãe é que não!!! Podem-se cortar alguns itens dos acima citados. Eu, por exemplo, sou uma nódoa na cozinha e não me ralo nada com isso, mas dizerem que sou má mãe isso nem eu nem nenhuma mulher/mãe tolera! E a verdade é que a pressão existe e o modelo de mãe ideal é muitas vezes veiculado pela família, por amigos e mesmo por estranhos, normalmente de forma enviesada, de crítica e “sugestão” (…).

A vida procura demasiado parecer-se com a ficção, infelizmente para muitos de nós. Procuramos um modelo com o qual nos identificamos e toca a exigir altíssimos níveis de performance para a nossa vida chegar a esses patamares. Competimos de forma desleal com ideais inventados e propagados pelos media e tv’s e séries e o diabo a quatro.

Não estará na altura de sermos mais condescendentes connosco próprios? Desculpabilizarmo-nos por não sermos perfeitos e viver mais as coisas à nossa maneira? E educar a nossa criançada de acordo com o nosso bom-senso?

adenda ora nem mais!

3 thoughts on “má mãe

  1. caganda pinta! um gosto e dois comentários… esta interacção está a ficar interessante :) esta semana as estatísticas estão simpáticas ;)
    obrigada e ainda bem que gostaram!
    beijinhos às duas

  2. Clap, clap, clap!!!

    Que belo texto.
    Ultimamente também tenho pensado nisto. Hoje em dia exige-se “perfeição” (seja lá o que isso seja) em tudo e pelo meio há pouco bom senso.

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